18 de abril de 2013

Colégio de tempo integral muda a vida de jovens em Igrapiúna 
 

Thiago Santana (à esquerda) cursa o 2o ano de agroecologia e repassa à comunidade técnicas de agricultura e sustentabilidade, aprendizado que o diretor da escola, Ademário Reis, afirma fazer parte do cotidiano dos alunos

Luíza torres
redação I secom

Para muitos jovens que moram no interior, a vida não é fácil. A maioria se sente obrigada a abandonar os estudos para ajudar no sustento da família. Mas em Igrapiúna, no baixo sul baiano, essa história começa a mudar. No município, o futuro é cultivado em sala de aula.

Os moradores de Igrapiúna não esperavam muito da vida profissional no município, que apresenta um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH) do estado – 0,601. Com a implantação do Colégio Estadual Casa Jovem II, as oportunidades começaram a surgir. Na unidade, de tempo integral, são oferecidas aulas de informática, rádio, capoeira, futebol, teatro e dança.

A escola faz parte da rede de ensino ligada ao Programa de Desenvolvimento e Crescimento Integrado com Sustentabilidade do Mosaico de Áreas de Proteção Ambiental do Baixo Sul da Bahia (PDCIS), criado pela Fundação Odebrecht em parceria com o Governo da Bahia.

Oportunidade – "Amo estudar aqui. Nessa escola, tenho muitas oportunidades e estou aproveitando todas. Agradeço a Deus por esse espaço, pois não são todos os jovens que têm essa oportunidade", diz a estudante do 2º ano do ensino médio Juliana Jesus Santos. Ela é uma das alunas de teatro e garante se dedicar ao curso. "Amo teatro. Descobri minha capacidade de interpretar aqui na escola e quero dar continuidade a esse projeto mesmo depois que completar o ensino médio."
O motivo para o orgulho dos 381 alunos está nas oportunidades oferecidas pelo colégio, onde os estudantes têm chance de sair com uma profissão. No curso técnico de agroecologia, os alunos do ensino médio aperfeiçoam o que já aprenderam com os pais na roça.

Clones de cacau – O colégio fica na Fazenda Vale do Juliana, da Fundação Odebrecht, onde as aulas práticas são realizadas. No local, os alunos aprendem técnicas de produção de sementes e mudas e até a fazer clones de cacau.
Com a formação adquirida na escola, os alunos ajudam a melhorar a qualidade dos produtos desenvolvidos pela comunidade e já saem preparados para o mercado de trabalho. Os estudantes de agroecologia fazem estágios na Fazenda Juliana e a maior parte dos 299 formados, entre 2009 e 2011, trabalha no local. Os outros fazem consultoria particular para pequenos e médios produtores da região.
 
Trabalho social é desenvolvido na comunidade
Aluno do 2o ano do curso técnico de agroecologia Thiago Santana também sonha alto e já faz planos para o futuro – quer fazer faculdade de agronomia para continuar trabalhando no campo. Mas, antes mesmo de completar o ensino médio, Thiago, junto com os colegas de sala, realiza trabalho social na comunidade onde mora. Ele ensina as técnicas de agricultura e sustentabilidade que aprendeu em sala de aula para os pequenos agricultores.

"Eles (agricultores) não sabem como alinhar agricultura a proteção ambiental. O nosso papel é passar isso para eles, além de ensinar técnicas de plantação e cultivo. Na nossa atividade, precisamos de um meio ambiente saudável. Por isso, devemos nos preocupar também com a sustentabilidade. Ensinamos à comunidade a não usar agrotóxicos, não queimar o lixo ou enterrar, porque isso causa vários problemas ao solo e nascentes", ensina Thiago. A consultoria não se restringe aos vizinhos e amigos. Em casa, o estudante já desenvolveu técnicas para melhorar a qualidade da plantação e aumentar a produção.

O diretor do colégio, Ademário Reis, explica que a consultoria à comunidade faz parte do currículo do curso técnico. De acordo com ele, o aprendizado escolar sempre está alinhado ao cotidiano do aluno. "Os professores estão sempre muito atentos quanto aos conhecimentos do seu dia a dia no campo que podem ser utilizados em sala de aula."
 
Cursos de cozinheira e de panificação

Maria Lúcia Santos fez curso profissionalizante e hoje trabalha na própria unidade atendendo a funcionários, professores e estudantes
A comunidade também é beneficiada com a realização de cursos profissionalizantes – de cozinheira e panificação, entre outros – resultado de parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Formados, muitos alunos dessas capacitações passaram a trabalhar no colégio.

Um exemplo é a cozinheira Maria Lúcia Santos, que trabalha na unidade desde a fundação, em 2005. Hoje, ela cozinha para os alunos, professores e funcionários que ficam no colégio durante todo o dia. "Na região, era muito difícil arranjar emprego e eu estava desempregada. Quando soube do curso, fiz imediatamente. Foi isso que garantiu o meu emprego", diz Maria Lúcia.

Outro morador que aproveitou as oportunidades oferecidas é o agora padeiro Hélio Santos Silva, 20 anos. Entre a preparação de uma massa e outra, ele diz o quanto sua vida melhorou. "O curso facilitou muito meu acesso ao mercado de trabalho. Aqui não tinha nada pra fazer. Essa escola mudou muito a minha vida."
Outra iniciativa é a parceria do colégio e o Exército, promovendo instrução militar aos jovens, que vão servir à instituição. Com isso, eles podem desenvolver as atividades sem precisar mudar de cidade.
 
Referência em gestão educacional
Em 2010, o Colégio Estadual Casa Jovem II foi eleito Escola Referência em Gestão Escolar – Destaque Brasil pelo Conselho Nacional de Secretários da Educação (Consed). No ano passado, mais uma vez, a unidade foi reconhecida pelo trabalho desenvolvido, conquistando o 12º Prêmio Escola Voluntária, desenvolvido pela Fundação Itaú Social e pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação. A premiação foi conferida por apresentações teatrais e de poesia para a comunidade.

Os temas ajudam na conscientização sobre sustentabilidade e outros aspectos de interesse dos moradores de Igrapiúna.
 
Redução do índice de evasão escolar
O colégio, que já recebeu três prêmios nacionais, também oferece aos alunos biblioteca, sala de leitura, radioescola e quadra poliesportiva. Todo esse aprendizado diferenciado, além da parceria com a comunidade, motiva os alunos a permanecerem na unidade por mais tempo. O resultado é a redução no índice de evasão escolar.

Para o diretor, Ademário Reis, a escola combate a evasão escolar por meio da valorização do campo. "Quando o estudante percebe que o colégio trata de sua realidade de forma positiva, trata de sua identidade como cidadão do campo, ele fica mais tempo na escola. Fazemos o possível para que nossos alunos permaneçam na sala de aula."

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