2 de outubro de 2014

Boqueirão da Onça precisa ser um parque, diz especialista

Boqueirão da Onça precisa ser um parque, diz especialista

Juliana Lisboa

  • Margarida Neide | Ag. A TARDE
    José Alves Siqueira Filho, doutor em biologia vegetal
Autor do livro Flora das Caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação, vencedor do Prêmio Jabuti 2013, na categoria Ciências Naturais, o professor José Alves Siqueira Filho, doutor em biologia vegetal pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fala, com exclusividade a A TARDE, sobre a importância ecológica da região conhecida como Boqueirão da Onça, onde estão localizados cinco municípios do semiárido baiano. Ele aponta, entre outros pontos que considera prejudiciais para o local, a demora da transformação da região em um parque nacional, que ele diz ser uma promessa do governo federal estagnada desde 2002. A equipe de reportagem entrou em contato com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, com o Ministério do Meio Ambiente, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sem que nenhuma dessas instituições tenham se manifestado sobre as críticas ou reclamassem responsabilidade sobre o projeto. Confira a conversa com o especialista.

Qual é a importância de criar, tão urgentemente, um parque nacional no Boqueirão da Onça?

Seria o maior parque nacional extra-amazônico do país. Em 2000, já se sabia da importância da região, mas só existiam estudos isolados. Na época, o ICMBio - ainda Ibama - começou a se interessar pela temática da caatinga e começou a mandar equipes. Em 2002, a conversa começou oficialmente e, em 2006, a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) foi convidada para reunir informações da flora da região e fazer um inventário das espécies. Ficamos perplexos com o que encontramos. Como uma região daquela magnitude, isolada no semiárido baiano e que envolve cinco municípios [Umburana, Sento Sé e Sobradinho, Campo Formoso e Juazeiro], pode ter as maiores cavernas do Hemisfério Sul, uma flora repleta de espécies raras e espécies ameaçadas de extinção? Diante disso, pensamos: "temos que transformar isso num parque".

O que aconteceu?

O governo começou a trabalhar em cima de uma proposta que correspondia a um milhão de hectares. No que o processo de discussão foi avançando, começou a ficar confuso nas comunidades, por causa dos assentados da bacia do São Francisco. Na verdade, eles eram 'reassentados', porque já tiveram que sair de suas casas por conta da barragem de Sobradinho, que deixou a terra toda debaixo d'água. Eles pensaram: "tivemos que sair uma vez, teremos que sair de novo"? Pensamento que tem sentido, porque a delimitação de um parque implica desapropriação da área. Dessa forma, o governo federal, com o Ibama, decidiu reunir informações com os núcleos de pesquisa das universidades para aprofundar os estudos da flora, como o das onças pintadas, por exemplo - daí o nome Boqueirão da Onça - e delimitar os lugares que seriam inviáveis de se viver. O problema é que, quando o processo foi às audiências públicas, as comunidades começaram a pensar: "ah, não, mas isso aqui foi do meu avô. É meu, não quero sair". Porque, veja bem, a nova área compreendia 800 mil hectares, é uma área maior do que países como Portugal e Espanha. A gente está com uma grande oportunidade que não foi bem trabalhada e virou um grande problema. O governo retrocedeu, porque se tratava de um projeto impopular.

E hoje?

Não podemos mais esperar porque as espécies seguem desaparecendo. Ameaças continuam acentuando. E mais: como o processo foi mal conduzido pelo governo à época, hoje temos a mais baixa densidade demográfica na região. Temos os piores solos agrícolas da Bahia. Então, não há vocação agrícola, não há presença de pessoas. Em paralelo, as mineradoras perceberam alguns locais em que existia minério de ferro e pequenos garimpos de cristais de quartzo e ametista, mas muito primitivo. Na década de 1950, na região da Cabeluda, que é o coração do Boqueirão da Onça, chegou a ter 5 mil famílias. Cheguei lá há dois meses e há 17. Porque acabou toda a demanda de pedras preciosas, especialmente a ametista. Então, o único proveito que se pode ter hoje da região do Boqueirão é criando o parque nacional.

De que forma?

Prestação de serviço ambiental. Com a caatinga de pé, o ar fica mais saudável, menos poluído, e isso repercute até para quem vive em Salvador. Do ponto de vista ambiental, vivemos um momento de mudanças climáticas e no regime de chuvas - ninguém sabe mais que hora chove. A melhora da qualidade do ar, a regulamentação do regime hídrico, das chuvas, tudo isso é um benefício que viria da preservação da caatinga. Além disso, a região é uma excelente candidata ao ecoturismo, como acontece em Bonito (MS) e na Chapada Diamantina. Um dado interessante é que cerca de 80% dos turistas que vão à Chapada são estrangeiros. Eles têm, literalmente, o mundo para visitar e escolhem esse local. Por quê? Por causa do ecoturismo, um turismo de alto nível, que se perde. O Boqueirão da Onça pode resgatar isso.

E o Brasil tem postura sustentável há algum tempo...

Desde a Eco 92 [quando o Rio de Janeiro sediou o evento]. Essa convenção dizia, entre outras coisas, que cada país se comprometeria em preservar pelo menos 10% de cada um de seus biomas. O governo não está fazendo a parte dele: a caatinga tem menos de 2% de unidade de conservação de proteção integral.

Por que preservar a caatinga?

A caatinga tem um conjunto de belezas cênicas, de biodiversidades que não se tem ideia. Quando a gente fez esse projeto [que deu origem ao livro Caatinga Rio São Francisco] e registrou 1.031 espécies na transposição do rio São Francisco, pensava-se que não havia tanta variedade. O baiano que está na beira da praia é como o recifense que está na beira da praia: só olha para o mar. É só Dorival Caymmi, não tem Chico Mendes no meio. Não olha para o interior.

O que acontecerá com o Boqueirão da Onça se o parque demorar para ser criado?

A gente está perdendo a oportunidade de preservar o bioma da caatinga, que representa 11% do território nacional. Por que a emergência? Fiz um estudo com meus alunos e pegamos as imagens de satélite do ano 2000, quando surgiu a promessa do parque, e comparamos à mesma imagem de 2009: 35% da área foi degradada. E recuperar um hectare de caatinga não é a mesma coisa que recuperar um hectare de mata atlântica. A caatinga é o bioma mais frágil do país: quando se perde 35%, perde-se para sempre. A fortuna que custa recuperar a caatinga é economicamente inviável. Então, é mais barato preservar e mantê-la de pé: por isso a emergência. Não se justificam 12 anos de processo, a apatia dos governos federal e baiano, que diz que, como a proposta é federal, ele concorda com as diretrizes federais. Por que não cobrar?

A chegada da indústria eólica ao local teve impacto no Boqueirão?

As usinas rasgaram 200 quilômetros de caatinga virgem com máquinas para a construção do parque eólico. Quando um passarinho está voando nos galhos, estudos dizem que eles são incapazes de atravessar uma estrada. O espaço do habitat dos animais começa a ser reduzido. Eles não vão embora, morrem. Depois desse processo das eólicas, que foram instaladas nas serras, as onças começaram a descer e chegaram a atacar animais criados pelas famílias da região. As pessoas não entendiam por que, de repente, as onças começaram a aparecer. Pior: começaram a matá-las. A estimativa é que hoje haja 13 animais. É a última população de onças na bacia do São Francisco.

A Copa do Mundo teve o tatu- -bola como mascote. Isso trouxe visibilidade à causa?

De fato, o Brasil propôs o tatu-bola como símbolo do Mundial. E o que foi feito para preservar o tatu-bola? Onde é que ele vive? Exclusivamente, na região da caatinga, em pequenas manchas no cerrado. O tatu-bola, uma espécie genuinamente brasileira, foi abandonado pela Fifa. A gente publicou muita coisa, falamos com a BBC de Londres, com jornal no Afeganistão. Até para a imprensa japonesa, a gente deu entrevista, porque estava o mundo todo querendo saber o futuro desse animal. Detalhe: no Boqueirão também há tatu-bola. O que ficou disso? Publicamos um artigo que foi capa da Biotropica, uma revista norte-americana, que bateu recorde de downloads para leitura. O artigo era uma provocação à Fifa e ao governo, dizendo que eles ainda tinham tempo de fazer alguma coisa pela caatinga e o próprio tatu-bola. Nossas proposições foram: criar unidade de conservação para preservar o tatu-bola, criar uma ferramenta jurídica política e instrumental, o Pan do tatu-bola e, finalmente, desafiamos o governo a proteger um hectare de caatinga a cada gol. A Fifa tinha que deixar um legado ambiental. Qual foi o legado da Copa na Bahia? Esse metrô de seis quilômetros? É pouco.

FONTE  http://atarde.uol.com.br/bahia/noticias/1626307-boqueirao-da-onca-precisa-ser-um-parque-diz-especialista-premium

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