Boqueirão da Onça precisa ser um parque, diz especialista
Juliana Lisboa
Autor do livro Flora das Caatingas do Rio São Francisco: história
natural e conservação, vencedor do Prêmio Jabuti 2013, na categoria
Ciências Naturais, o professor José Alves Siqueira Filho, doutor em
biologia vegetal pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fala,
com exclusividade a
A TARDE, sobre a importância
ecológica da região conhecida como Boqueirão da Onça, onde estão
localizados cinco municípios do semiárido baiano. Ele aponta, entre
outros pontos que considera prejudiciais para o local, a demora da
transformação da região em um parque nacional, que ele diz ser uma
promessa do governo federal estagnada desde 2002. A equipe de reportagem
entrou em contato com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, com o
Ministério do Meio Ambiente, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos
Hídricos (Inema) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), sem que nenhuma dessas instituições tenham se
manifestado sobre as críticas ou reclamassem responsabilidade sobre o
projeto. Confira a conversa com o especialista.
Qual é a importância de criar, tão urgentemente, um parque nacional no Boqueirão da Onça?
Seria o maior parque nacional extra-amazônico do país. Em 2000, já se
sabia da importância da região, mas só existiam estudos isolados. Na
época, o ICMBio - ainda Ibama - começou a se interessar pela temática da
caatinga e começou a mandar equipes. Em 2002, a conversa começou
oficialmente e, em 2006, a Universidade Federal do Vale do São Francisco
(Univasf) foi convidada para reunir informações da flora da região e
fazer um inventário das espécies. Ficamos perplexos com o que
encontramos. Como uma região daquela magnitude, isolada no semiárido
baiano e que envolve cinco municípios [Umburana, Sento Sé e Sobradinho,
Campo Formoso e Juazeiro], pode ter as maiores cavernas do Hemisfério
Sul, uma flora repleta de espécies raras e espécies ameaçadas de
extinção? Diante disso, pensamos: "temos que transformar isso num
parque".
O que aconteceu?
O governo começou a trabalhar em cima de uma proposta que correspondia a
um milhão de hectares. No que o processo de discussão foi avançando,
começou a ficar confuso nas comunidades, por causa dos assentados da
bacia do São Francisco. Na verdade, eles eram 'reassentados', porque já
tiveram que sair de suas casas por conta da barragem de Sobradinho, que
deixou a terra toda debaixo d'água. Eles pensaram: "tivemos que sair uma
vez, teremos que sair de novo"? Pensamento que tem sentido, porque a
delimitação de um parque implica desapropriação da área. Dessa forma, o
governo federal, com o Ibama, decidiu reunir informações com os núcleos
de pesquisa das universidades para aprofundar os estudos da flora, como o
das onças pintadas, por exemplo - daí o nome Boqueirão da Onça - e
delimitar os lugares que seriam inviáveis de se viver. O problema é que,
quando o processo foi às audiências públicas, as comunidades começaram a
pensar: "ah, não, mas isso aqui foi do meu avô. É meu, não quero sair".
Porque, veja bem, a nova área compreendia 800 mil hectares, é uma área
maior do que países como Portugal e Espanha. A gente está com uma grande
oportunidade que não foi bem trabalhada e virou um grande problema. O
governo retrocedeu, porque se tratava de um projeto impopular.
E hoje?
Não podemos mais esperar porque as espécies seguem desaparecendo.
Ameaças continuam acentuando. E mais: como o processo foi mal conduzido
pelo governo à época, hoje temos a mais baixa densidade demográfica na
região. Temos os piores solos agrícolas da Bahia. Então, não há vocação
agrícola, não há presença de pessoas. Em paralelo, as mineradoras
perceberam alguns locais em que existia minério de ferro e pequenos
garimpos de cristais de quartzo e ametista, mas muito primitivo. Na
década de 1950, na região da Cabeluda, que é o coração do Boqueirão da
Onça, chegou a ter 5 mil famílias. Cheguei lá há dois meses e há 17.
Porque acabou toda a demanda de pedras preciosas, especialmente a
ametista. Então, o único proveito que se pode ter hoje da região do
Boqueirão é criando o parque nacional.
De que forma?
Prestação de serviço ambiental. Com a caatinga de pé, o ar fica mais
saudável, menos poluído, e isso repercute até para quem vive em
Salvador. Do ponto de vista ambiental, vivemos um momento de mudanças
climáticas e no regime de chuvas - ninguém sabe mais que hora chove. A
melhora da qualidade do ar, a regulamentação do regime hídrico, das
chuvas, tudo isso é um benefício que viria da preservação da caatinga.
Além disso, a região é uma excelente candidata ao ecoturismo, como
acontece em Bonito (MS) e na Chapada Diamantina. Um dado interessante é
que cerca de 80% dos turistas que vão à Chapada são estrangeiros. Eles
têm, literalmente, o mundo para visitar e escolhem esse local. Por quê?
Por causa do ecoturismo, um turismo de alto nível, que se perde. O
Boqueirão da Onça pode resgatar isso.
E o Brasil tem postura sustentável há algum tempo...
Desde a Eco 92 [quando o Rio de Janeiro sediou o evento]. Essa
convenção dizia, entre outras coisas, que cada país se comprometeria em
preservar pelo menos 10% de cada um de seus biomas. O governo não está
fazendo a parte dele: a caatinga tem menos de 2% de unidade de
conservação de proteção integral.
Por que preservar a caatinga?
A caatinga tem um conjunto de belezas cênicas, de biodiversidades que
não se tem ideia. Quando a gente fez esse projeto [que deu origem ao
livro Caatinga Rio São Francisco] e registrou 1.031 espécies na
transposição do rio São Francisco, pensava-se que não havia tanta
variedade. O baiano que está na beira da praia é como o recifense que
está na beira da praia: só olha para o mar. É só Dorival Caymmi, não tem
Chico Mendes no meio. Não olha para o interior.
O que acontecerá com o Boqueirão da Onça se o parque demorar para ser criado?
A gente está perdendo a oportunidade de preservar o bioma da caatinga,
que representa 11% do território nacional. Por que a emergência? Fiz um
estudo com meus alunos e pegamos as imagens de satélite do ano 2000,
quando surgiu a promessa do parque, e comparamos à mesma imagem de 2009:
35% da área foi degradada. E recuperar um hectare de caatinga não é a
mesma coisa que recuperar um hectare de mata atlântica. A caatinga é o
bioma mais frágil do país: quando se perde 35%, perde-se para sempre. A
fortuna que custa recuperar a caatinga é economicamente inviável. Então,
é mais barato preservar e mantê-la de pé: por isso a emergência. Não se
justificam 12 anos de processo, a apatia dos governos federal e baiano,
que diz que, como a proposta é federal, ele concorda com as diretrizes
federais. Por que não cobrar?
A chegada da indústria eólica ao local teve impacto no Boqueirão?
As usinas rasgaram 200 quilômetros de caatinga virgem com máquinas para
a construção do parque eólico. Quando um passarinho está voando nos
galhos, estudos dizem que eles são incapazes de atravessar uma estrada. O
espaço do habitat dos animais começa a ser reduzido. Eles não vão
embora, morrem. Depois desse processo das eólicas, que foram instaladas
nas serras, as onças começaram a descer e chegaram a atacar animais
criados pelas famílias da região. As pessoas não entendiam por que, de
repente, as onças começaram a aparecer. Pior: começaram a matá-las. A
estimativa é que hoje haja 13 animais. É a última população de onças na
bacia do São Francisco.
A Copa do Mundo teve o tatu- -bola como mascote. Isso trouxe visibilidade à causa?
De fato, o Brasil propôs o tatu-bola como símbolo do Mundial. E o que
foi feito para preservar o tatu-bola? Onde é que ele vive?
Exclusivamente, na região da caatinga, em pequenas manchas no cerrado. O
tatu-bola, uma espécie genuinamente brasileira, foi abandonado pela
Fifa. A gente publicou muita coisa, falamos com a BBC de Londres, com
jornal no Afeganistão. Até para a imprensa japonesa, a gente deu
entrevista, porque estava o mundo todo querendo saber o futuro desse
animal. Detalhe: no Boqueirão também há tatu-bola. O que ficou disso?
Publicamos um artigo que foi capa da Biotropica, uma revista
norte-americana, que bateu recorde de downloads para leitura. O artigo
era uma provocação à Fifa e ao governo, dizendo que eles ainda tinham
tempo de fazer alguma coisa pela caatinga e o próprio tatu-bola. Nossas
proposições foram: criar unidade de conservação para preservar o
tatu-bola, criar uma ferramenta jurídica política e instrumental, o Pan
do tatu-bola e, finalmente, desafiamos o governo a proteger um hectare
de caatinga a cada gol. A Fifa tinha que deixar um legado ambiental.
Qual foi o legado da Copa na Bahia? Esse metrô de seis quilômetros? É
pouco.
FONTE http://atarde.uol.com.br/bahia/noticias/1626307-boqueirao-da-onca-precisa-ser-um-parque-diz-especialista-premium