4 de novembro de 2013

Coral invasor ameaça biodiversidade local

Franco Adailton

  • Lúcio Távora | Ag. A TARDE
    Monitor de recifes da ONG Pró-mar, José Carlos Barbosa, trabalha na remoção de colônias
No fundo da Baía de Todos-os-Santos (BTS), uma ameaça silenciosa põe em risco a biodiversidade marinha nos recifes de corais. É o coral-sol (Tubastrea tagusensis e Tubastrea coccinea), um bioinvasor trazido da Ásia nos anos 1980, que há dois anos tem se espraiado na Bahia.

O animal cnidário (do mesmo grupo das águas-vivas e anêmonas) se reproduz de forma assexuada, provoca a extinção dos corais nativos e, pior, pode reduzir a oferta do pescado no longo prazo.

 Com capacidade reprodutiva de duas a três vezes maior do que as espécies nativas, o coral-sol, se não combatido com urgência, dizem especialistas, causará impacto nas economias de cinco cidades: Salvador, Itaparica, Vera Cruz, Salinas das Margaridas e Maragogipe.

Localizado pela primeira vez na Bahia, em 2008, no naufrágio Cavo Artemidi, o coral-sol vem se proliferando no recife natural conhecido como "Cascos", sedimentado a 20 metros de profundidade na costa leste da Ilha de Itaparica (Grande Salvador), a 12 km da capital via mar.
Nos recifes artificiais, o coral-sol já foi encontrado também na marina de Itaparica e nas plataformas da Petrobras, no estuário do Rio Paraguaçu, onde fica a Reserva Extrativista Marinha do Iguape.

Pesquisa
Autor do projeto "Corais da Baía", o mestrando em Ecologia e Biomonitoramento pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, Ricardo Miranda, 25, tem pesquisado formas de combater o coral-sol, cuja característica é suprimir as espécies nativas quimicamente.

O estudioso e o monitor de recifes de coral da ONG Pró-mar, José Carlos Barbosa, 49, foram os primeiros a detectar a presença de centenas de colônias do coral-sol no recife natural dos Cascos, no final de 2011.

"O que pode acontecer é a evasão de espécies marinhas dos corais, já que o coral-sol, além de não servir de comida, também come os plânctons que as alimentam", explica o biólogo, sobre os efeitos na cadeia alimentar.

Como parte da pesquisa financiada pela instituição inglesa de conservação ambiental Ruffur Foundation, a equipe do projeto Corais da Baía tem feito experimentos para combater o coral-sol.

Em um deles, detectou que o coral Montastraea cavernosa desenvolveu uma estratégia de contra-ataque ao coral-sol. No outro, identificou o verme-marinho poliqueta-de-fogo (Hermodice curunculata) como um predador natural do invasor.

"Temos que ampliar os estudos, porque não podemos simplesmente aumentar o número de vermes sem saber as consequências", explica ele, cujo projeto será concluído em agosto de 2014.

Remoção manual

Enquanto as pesquisas continuam em andamento, a remoção das colônias de coral-sol tem sido feita pelas ONGs de forma artesanal, com marretas e talhadeiras.

Na última quinta-feira, A TARDE acompanhou ambientalistas da ONG Pró-mar em uma expedição de monitoramento para analisar a expansão das colônias de coral-sol na região dos Cascos.

"O coral-sol não é apenas um bioinvasor, é uma praga", observa o presidente da Pró-mar, José Pinto, 49, o
Zé Pescador, cujo trabalho consiste em educar pescadores para a conservação da biodiversidade marinha.

Ele alerta que a retirada das colônias invasoras requer treinamento, sob o risco de o coral-sol  espalhar novas larvas, caso seja removido de maneira errada.

"Nasce sobre qualquer surperfície: ostras, metal, concreto, fibra-de-vidro e até na lama", enumera, temoroso de que o coral-sol se prolifere nos manguezais.

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