15 de maio de 2013

Invasora marítima

Águas-vivas de espécie exótica são avistadas em grande número no litoral paulista. A introdução do animal, provavelmente por navios transoceânicos, pode ter impactos socioeconômicos e afetar o equilíbrio ecológico da região. 
 
Por: Sofia Moutinho
Publicado em 14/05/2013 | Atualizado em 14/05/2013
Invasora marítima
 
A água-viva-australiana-manchada é uma espécie invasora que pode impactar o equilíbrio ecológico do 
litoral brasileiro. (foto: Orest Shvadchak/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

Uma visitante estrangeira está marcando presença no litoral brasileiro e tem preocupado pescadores e ambientalistas. A água-viva-australiana-manchada (Phyllorhiza punctata) tem sido vista com frequência e em grande número nas águas da região de Ubatuba, norte paulista. A espécie invasora pode causar impactos no meio ambiente e na pesca.

A ocorrência da água-viva é alardeada pelo Aquário de Ubatuba, que foi contatado por pescadores da região que viram o animal exótico e levaram um exemplar para a instituição. Os pesquisadores não têm como saber o número preciso de invasores, mas estimam que seja de um animal por metro quadrado, o que representa um boom. 

A água-viva-australiana-manchada é nativa do Pacífico Ocidental e ocorre naturalmente da Austrália ao Japão, mas é uma espécie invasora já conhecida. Desde a década de 1990 tem sido registrada em diversos lugares do planeta, inclusive no nordeste e sul do Brasil. A preocupação está no seu hábito alimentar, que pode afetar o equilíbrio ecológico dos locais que invade.

O animal come plâncton e larvas de crustáceos, como o camarão. Em 2000, no Golfo do México, a chegada e a expansão da água-viva levaram a uma diminuição brusca dos camarões, o que afetou o meio ambiente e a economia local baseada na pesca.

O oceanógrafo Hugo Gallo, diretor executivo do Aquário de Ubatuba, teme que o mesmo ocorra no litoral sudeste, onde a pesca de camarões também garante a subsistência de muitas famílias.
 
“Além de afetar a pesca e a vida dos pescadores, a introdução dessa água-viva representa perigo para os banhistas, pois libera toxinas que queimam a pele, e afeta o equilíbrio ecológico da região”

"A avaliação do impacto é difícil, mas a situação é preocupante e exige acompanhamento”, aponta Gallo. 

“Além de afetar a pesca e a vida dos pescadores, a introdução dessa água-viva representa perigo para os banhistas, pois ela libera toxinas que queimam a pele, e afeta o equilíbrio ecológico da região.” 

Gallo diz que é difícil determinar o que causou o aparecimento as águas-vivas, mas ele aposta na água de lastro dos navios. A água de lastro é capturada pelos navios no oceano para garantir a sua estabilidade. 

Como pode ser coletada e descartada em diferentes pontos do planeta por onde o navio passa, ela carrega espécies de uma região para outra. 

“Pode ser que as água-vivas encontradas sejam resultado da expansão reprodutiva de outras que já tinham chegado ao litoral brasileiro anteriormente, mas o mais provável é que tenham chegado à região recentemente na água de lastro dos navios, pois o aparecimento delas coincide com o aumento de navios chegando ao porto”, afirma o pesquisador, que já estuda a introdução de outra água-viva exótica na região.

De porto em porto

A Organização Marítima Internacional (IMO) estima que aproximadamente 65 mil navios transoceânicos estejam operando atualmente. Isto significa que há um transporte de aproximadamente 5 bilhões de metros cúbicos de água de lastro por ano e que cerca de 3 mil espécies de microrganismos são transportadas na água de lastro de navios.

O litoral paulista e fluminense enfrentam essa realidade diariamente com a alta circulação nos portos da região e o crescimento da indústria de petróleo e pré-sal. Gallo chama a atenção para a situação e para a necessidade de mais controle da água de lastro.

“Preocupa porque é uma região ainda preservada e que pode sofrer impactos muito grandes com o crescimento dessas atividades econômicas, que são importantes, mas têm que ser mais bem pensadas para não afetar o equilíbrio ecológico da região”, diz.

O Brasil tem leis que tratam do assunto e desde 2005 está em vigor uma norma nacional que obriga todos os navios a dispensar a água de lastro antes de entrar em portos brasileiros, a pelo menos 200 milhas náuticas da costa. Mas a regra não parece estar sendo cumprida.
  Sofia MoutinhoCiência Hoje On-line

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