30 de setembro de 2012

Universidade baiana desenvolve projeto pioneiro no Nordeste

Fabiana Mascarenhas

  • Fernando Amorim | Ag. A TARDE
    Os alunos de engenharia química e a professora Leila Aguilera durante a inauguração do laboratório
Atualmente, apenas 8% do bagaço da cana-de-açúcar é utilizado no processo de produção de etanol e açúcar. Os outros 92% são reaproveitados, principalmente, para gerar energia elétrica, por meio de sua queima nas próprias usinas. Mas, pesquisadores brasileiros vêm descobrindo que é possível extrair muito mais que energia com a parte excedente do bagaço e da palha da cana-de-açúcar.
Com o material, se produz também os chamados biocombustíveis de segunda geração, nome dado ao álcool feito com os resíduos da cana e uma das alternativas mais promissoras e ambientalmente sustentáveis para a substituição de combustíveis fósseis.
Estudos já vêm sendo realizados em universidades de  alguns estados brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo, e a Bahia será a primeira do Nordeste a desenvolver um projeto neste sentido. A Universidade Salvador (Unifacs) inaugurou na última semana o Núcleo de Química Verde,  laboratório de etanol de segunda geração que reaproveita o bagaço da cana-de-açúcar para produzir combustível.
Processo - O núcleo funcionará no Campus Federação  e está vinculado ao curso de engenharia química da instituição. "O mais interessante deste processo é que é possível obter entre 30% a 40% mais etanol por hectare de cana plantado. Isso significa que é possível aumentar substancialmente a produção do biocombustível, sem a necessidade de ampliar a área plantada de cana-de-açúcar", explica a coordenadora do Núcleo de Química Verde, a professora e pesquisadora Leila Aguilera.
A celulose, a hemicelulose e a lignina são os três principais componentes do bagaço de cana-de-açúcar. Segundo Aguilera, o etanol é obtido diretamente da celulose e seus derivados existentes na biomassa (bagaço e palha).
"Após a última moenda da cana, o bagaço torna-se praticamente um pó formado de partículas e fibras de vários tamanhos. A porção mais dura dessa mistura é rica em lignina e oriunda da parte externa do caule. Já o material mais mole é deriva do interior da planta. Essa é a melhor parte para entrar no processo de produção de etanol, por ser rica em celulose", explica.
A pesquisadora explica que os resíduos podem transformar-se em biocombustível quando submetidos a reações de hidrólise, um processo químico de quebra de moléculas. A Unifacs investe no método de hidrólise enzimática, que utiliza, no lugar de ácidos, enzimas produzidas por microrganismos capazes de quebrar o açúcar da celulose, transformado em álcool combustível após o processo de fermentação.
Estudos conduzidos no âmbito do Projeto Bioetanol, uma rede de pesquisa financiada pelo governo federal, apontam que uma destilaria que produz hoje um milhão de litros de etanol por dia do caldo da cana poderia inicialmente, com a tecnologia de hidrólise, gerar um adicional de 150 mil litros de etanol do bagaço. Em 2025, com a técnica aperfeiçoada, a mesma produção poderia ter um acréscimo de 400 mil litros provenientes do bagaço.
Entretanto, para chegar a um processo economicamente viável, há vários desafios que precisam ser superados e envolvem questões como o pré-tratamento do bagaço e os catalisadores usados para decompor a celulose.
"Hoje, aproveitar toda biomassa da cana é o principal desafio. O conhecimento sobre a hidrólise enzimática está avançado no Brasil, mas é necessário mais pesquisas. O processo precisa ter baixo custo, flexibilidade do uso de matérias-primas e é isso que vamos pesquisar", afirma.

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