22 de maio de 2013

Carvão mineral: um mal necessário?

A reportagem de capa da CH de março aborda a polêmica por trás da atividade de mineração carbonífera no Brasil. Enquanto uns defendem o aumento da exploração desse minério, outros o consideram ultrapassado e sua exploração prejudicial ao meio ambiente e à vida dos trabalhadores.
Por: Célio Yano
Publicado em 07/03/2013 | Atualizado em 11/03/2013
Carvão mineral: um mal necessário?
Rejeito de carvão em Criciúma (SC). O material bruto extraído em solo brasileiro, com altos teores de cinza e enxofre, é considerado de baixíssima qualidade. Em algumas áreas, chega-se a descartar 75% do que é extraído. (foto: Célio Yano)
Os argumentos de quem questiona a atividade mineradora no Brasil começam pelo aspecto econômico: extrair carvão por aqui não vale tanto a pena assim. Não é difícil entender o por quê. O carvão mineral é um sedimento fóssil, composto principalmente de carbono, hidrogênio e oxigênio, formado a partir de restos vegetais submetidos a condições extremas de temperatura e pressão durante muito tempo.
Na maior parte do mundo, os depósitos se acumularam no período Carbonífero, entre 359 e 245 milhões de anos atrás. No Brasil, as bacias de carvão, distribuídas quase em sua totalidade entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, começaram a se formar no Permiano, há cerca de 210 milhões de anos.
Por causa de diferenças na constituição da flora da época e do regime de deposição de sedimentos, o carvão bruto extraído em solo brasileiro, com altos teores de cinza e enxofre, é considerado de baixíssima qualidade. Para se ter uma ideia, do carvão bruto encontrado no subsolo da Polônia, 5% são considerados rejeito e descartados no processo de beneficiamento do material.
“O que se faz no Brasil é extração de rejeito, que, por acaso, vem com carvão junto”
Na Austrália, outro grande produtor de carvão, o índice de rejeito é de aproximadamente 10%, enquanto na Índia, em média 30% do material minerado é jogado fora. No Brasil, a proporção de material extraído do solo e depois descartado chega a 75% em algumas áreas.
A concentração de enxofre em uma amostra de carvão bruto cresce à medida que se avança pela bacia carbonífera brasileira na direção norte: vai de menos de 2% no Rio Grande do Sul até 14% no Paraná. “O que se faz no Brasil é extração de rejeito, que, por acaso, vem com carvão junto”, diz o engenheiro de minas Carlyle Bezerra de Menezes, cuja tese de doutorado, defendida na Universidade de São Paulo (USP), trata da gestão ambiental de recursos minerais.
O que não é aproveitado tem de ir para algum lugar. E, desde que a extração de carvão começou a ser feita – mais intensamente a partir da Primeira Guerra Mundial –, o rejeito é depositado em grandes áreas a céu aberto, gerando enorme passivo ambiental. A quantidade de material extraído e rejeitado nas últimas décadas é tão grande que só na região carbonífera catarinense (composta por 10 municípios) cobre mais de 6 mil hectares, contaminando solo e rios locais, já famosos pela coloração amarelo-avermelhada.
Rio contaminado
Rio contaminado por rejeitos de extração de carvão no município de Siderópolis (SC). (foto: Célio Yano)
Moradores da região de Criciúma lembram que, há algumas décadas, a pirita – como é chamado o rejeito da extração de carvão – chegou a ser usada na composição do asfalto usado para pavimentar vias locais. O material, tóxico, é o mesmo que compõe os amontoados visíveis à beira de estradas, espalhados por terrenos baldios geralmente acessíveis a qualquer pessoa.
O prejuízo para o ambiente continua nas usinas termelétricas, para onde quase todo o carvão brasileiro é destinado. Para cada tonelada queimada para aquecer a água e movimentar as turbinas dessas geradoras de energia elétrica, 4,5 toneladas de CO2 são liberadas na atmosfera – não existe forma de geração que emita mais carbono.
Por causa da má qualidade do mineral brasileiro, o carvão usado para outros fins, como na fabricação de aço, é praticamente todo importado de países como Estados Unidos, Austrália, Canadá, Colômbia e China.

Trabalhadores

Em Santa Catarina, toda a atividade de extração de carvão mineral é feita hoje em subsolo, enquanto no Rio Grande do Sul, por causa da pequena profundidade em que as jazidas de carvão se encontram (a partir de cerca de 2 m abaixo do solo), o processo de mineração é feito apenas na superfície, com auxílio de escavadeiras, desde que a última mina subterrânea foi desativada, em 2002.
No passado, a mobilização dos mineiros em torno de sindicatos regionais da categoria foi fundamental para conquistar direitos como o da aposentadoria especial, afirma a historiadora Clarice Speranza, que estudou conflitos entre patrões e empregados em minas do Rio Grande do Sul em seu doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Desde 1960, trabalhadores de minas de superfície podem se aposentar com 20 anos de trabalho; de subsolo, com 15. Hoje, as principais reivindicações da classe estão relacionadas a questões de segurança do trabalho. Representantes do setor garantem que a situação evoluiu muito nas últimas duas décadas.
De fato, desde o episódio que tirou a vida de 31 mineiros de uma vez, em Santa Catarina, em 1984, a quantidade de mortes por acidente de trabalho caiu para menos de duas por ano. Segundo a Federação Interestadual dos Trabalhadores da Indústria de Extração de Carvão (Fitiec), foram 19 mortes em minas nos últimos 10 anos – duas no Rio Grande do Sul e 17 em Santa Catarina.
“Sem dúvida, houve avanços em termos de segurança do trabalho nas últimas décadas, mas ainda há o que melhorar”
Em termos absolutos, o número é muito inferior, por exemplo, ao da construção civil, em que mais de um operário morre por dia, segundo dados de 2010 do Ministério da Previdência Social. Proporcionalmente, no entanto, a mortalidade ainda supera – e muito – a média, já que o setor de construção emprega aproximadamente 2,7 milhões de pessoas, enquanto a mineração de carvão tem hoje 6.046 empregados, de acordo com a Fitiec.
“Sem dúvida, houve avanços em termos de segurança do trabalho nas últimas décadas”, diz o mineiro Genoir José dos Santos, presidente da Fitiec. “Mas ainda há o que melhorar.”
Tanto nas minas de subsolo quanto nas de superfície, além dos acidentes de trabalho, os operários estão expostos a outra grave ameaça, que outrora atingia 10 entre 10 mineiros: a pneumoconiose. Causada pela inalação contínua da poeira do carvão, a doença, também chamada de ‘pulmão negro’, reduz a expectativa de vida do portador, uma vez que restringe a entrada de ar pelas vias respiratórias.
Mina de carvão
Além dos acidentes de trabalho, os mineiros estão expostos a outra grave ameaça, a pneumoconiose. Causada pela inalação contínua da poeira do carvão, a doença reduz a expectativa de vida do portador, uma vez que restringe a entrada de ar pelas vias respiratórias. (foto: Célio Yano)
Estudo feito pelo farmacêutico Silvio Ávila Jr., da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), revelou que não só os trabalhadores em minas de extração de carvão, mas também moradores de Lauro Müller, município da região carbonífera catarinense, têm taxas mais elevadas de chumbo, cobre, zinco e ferro no sangue do que um grupo-controle, formado por doadores de sangue do Hospital Universitário (HU) da UFSC, em Florianópolis. Esses elementos, juntamente com o manganês, compõem os principais componentes metálicos do carvão mineral.
O nível de zinco entre trabalhadores de minas subterrâneas foi 303,8% mais alto que a média dos indivíduos do HU. Entre os habitantes de Lauro Müller que não trabalham na mineração, a taxa de chumbo detectada foi 151% maior. “Ainda que não esteja configurado o quadro de pneumoconiose, esses metais, na corrente sanguínea, desencadeiam o chamado estresse oxidativo e a formação de radicais livres, capazes de danificar células sadias do corpo”, explica Danilo Wilhelm Filho, orientador do trabalho de Ávila Jr.

Você leu apenas o início da reportagem publicada na CH 301. Clique no ícone a seguir para baixar a versão integral.PDF aberto (gif)

Leia também um relato da visita do autor da matéria a mina de carvão mineral em Santa Catarina.

Célio Yano
Ciência Hoje/ PR

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