25 de fevereiro de 2013


Folha de S. Paulo



Livro com ilustrações "depenadas" revela a beleza e a anatomia das aves

JAMES GORMAN
DO "NEW YORK TIMES"
Nos agradecimentos de seu livro perturbador e irresistível, "The Unfeathered Bird" [A ave depenada], Katrina van Grouw faz uma pausa em sua lista de nomes para dizer: "Devo garantir aos leitores que nenhuma ave foi ferida durante a elaboração deste livro".
Parece uma ressalva estranha para uma coleção de desenhos de aves --até que você os veja. Os pássaros nesse livro não estão meramente depenados, eles também estão sem pele, no esqueleto e às vezes desmembrados.
Então eles são desenhados e descritos com grande habilidade, com atenção aos detalhes --de sua estrutura, sua evolução e suas vidas-- e com um senso de humor ligeiramente malicioso que faz do livro mais do que um mero compêndio.

Katrina van Grouw
Os desenhos de
Os desenhos de "The Unfeathered Bird" são de espécimes reais; no sentido horário, da esq. para a dir.: uma carqueja (Fulica), um dodô e um abutre eurasiático
As aves, algumas com músculos, outras só no esqueleto --todas desenhadas a partir de espécimes reais que morreram acidentalmente ou foram preservadas em coleções--, são posicionadas como estariam em vida: voando, paradas e andando.
Os desenhos resultantes vão agradar os que apreciam o ligeiramente grotesco. Eu gostei especialmente da arara-vermelha-e-verde e do periquito australiano que aparecem em páginas opostas. A arara é desenhada com a maior parte da pele removida. Ela mantém a musculatura, os pés escamosos e os olhos penetrantes que nos olham fixamente enquanto apoia-se em uma perna, segurando um lápis no bico com o outro pé. Seu olhar parece exigir uma resposta.
O periquito são só ossos em um poleiro, olhando para seu reflexo em um espelho de brinquedo. O reflexo capta todos os detalhes do bico curiosamente curvo da ave e de seu cérebro, incluindo as órbitas dos olhos, paradoxalmente vazias.
Passei mais que alguns momentos admirando os dedos roliços, semelhantes a frutos, do mergulhão de crista. Pasmei diante do que a autora/artista descreve como a "traqueia extraordinariamente enrolada" da ave-do-paraíso.
O texto não compete com a perícia dos desenhos, mas sempre que você para para ler é recompensado com discussões eruditas e bem torneadas de como e por que cada pássaro é formado daquela maneira.
Aprendi que os papagaios, como os seres humanos, são destros ou canhotos (sim, seus pés são como mãos para os humanos). Mas, ao contrário dos homens, "a maioria avassaladora dos papagaios é canhota".
Se você é devoto da beleza superficial dos seres com penas, pode parecer um pouco rude o modo como o livro expõe a estrutura e a história evolutiva das aves.
Mas se você ama o mundo natural por suas surpresas e por algo tão óbvio e emocionante quanto a enorme variedade de formas em que as aves e suas partes evoluíram, "The Unfeathered Bird" não vai decepcioná-lo. Apenas considere a lança pontiaguda da língua do pica-pau e os sulcos no crânio da ave para acomodá-la. Não posso imaginar alguém que não se impressione com essa amostra de anatomia.
Van Grouw agradece àqueles que toleraram suas "atividades impalatáveis" para que o livro acontecesse --depenar, pelar e desmembrar as aves. Os leitores também deveriam agradecer pelo resultado.


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